Economia colaborativa: mais um pilar do livre mercado

26/06/2018

Prof. Dr. Alexandre Nabil Ghobril


A emergência da economia colaborativa levou alguns analistas a ponderarem que a permuta e o compartilhamento  de recursos poderiam ser um empecilho ao desenvolvimento da economia de mercado, vez que tenderiam a desincentivar a aquisição de ativos pelo consumidor final, que se traduziriam em redução de recursos investidos em  bens de capital e de bens de consumo.

 

Ao contrário, a economia do compartilhamento tem demostrado que é um elemento de ativação do consumo e  do mercado. Com crescimento exponencial nos últimos anos, a economia compartilhada tornou-se objeto de considerável interesse não só para empreendedores em busca de oportunidades, prestadores de serviço e usuários do sistema, mas também de investidores de risco e formuladores de políticas públicas.

 

Embora sempre tenha existido como uma alternativa à propriedade, a expansão do modelo se viabilizou  pela reconfiguração do seu modus operandi, em um novo modelo de negócios apoiado nas plataformas digitais que conectam capacidade e demanda de reposição. Estas permitem uma medição mais precisa e em tempo real da oferta disponível com a necessidade daqueles que precisam dela, o que gerou uma facilidade de uso sem precedentes graças ao crescente número de dispositivos digitais que conectam instantaneamente as partes interessadas.

 

O conceito de economia colaborativa engloba um conjunto amplo de formas de conexão entre o ofertante do bem ou serviço e o usuário. Pode ser uma locação, empréstimo, assinatura, revenda, troca e até doações. Mas todos têm como base a criação de valor pela maximização da utilidade e do uso de recursos existentes, reduzindo sua ociosidade. Além disso, o modelo promove uma conexão emocional na medida em que provoca interações sociais entre o ofertante do produto/serviço e o cliente, uma espécie de relacionamento que envolve uma relação de confiança (embora os sistemas prevejam mecanismos para mitigar riscos), bem diferente dos métodos de compra e venda tradicionais.

 

Por exemplo, o Airbnb proporciona aos viajantes a capacidade de se conectar com os anfitriões locais e receber dicas de viagem de forma personalizada. Os serviços de compartilhamento de passeio, como o  Lyft, dependem de que os usuários se sintam confortáveis ​​confiando em estranhos para completar sua jornada com segurança.

 

Por outro lado, muitos negócios dessa nova economia desafiam o status quo, as regras existentes, a legislação e os privilégios e o corporativismo de grupos organizados. Apesar de amplamente apoiados pela população, empresas como o Uber, além da resistência dos taxistas, enfrenta entraves burocráticos, licenças e exigências crescentes de governos municipais. O Airbnb, da mesma forma, que contraria os interesses das grandes redes hoteleiras, sofre pressão de entidades governamentais locais, que querem sobretaxar a atividade e os ganhos dos proprietários dos imóveis. Enfim, a burocracia e o peso do Estado brasileiro, sua ânsia arrecadatória, e sob a justificativa que quer garantir a ordem e os direitos do cidadão, continua criando obstáculos e entraves à liberdade de empreender, numa proporção maior em que países onde  a liberdade econômica é mais presente.  

 

Mesmo com as barreiras apontadas, a força e o valor de mercado de muitos negócios baseados no conceito de economia colaborativa no Brasil não parem de crescer, mostrando que o consumidor percebe valor, confia no modelo, engaja-se pela facilidade de uso, economia, simplicidade ou, em alguns casos, por valores pessoais e pela causa.

 

O modelo, que no início gerou desconfiança e receio que poderia ser um entrave à economia de mercado, pelo seu conceito embutido de “socialização dos recursos”, hoje é um dos pilares da nova economia, do mercado livre, da vantagem competitiva das corporações. Nem mesmo um governo burocrático é capaz de impedir o seu avanço.