OS RUMOS DO SETOR TÊXTIL BRASILEIRO: lição de competitividade com liberdade econômica

09/02/2018

Prof. Dr. Adilson Caldeira e Prof. Dr. Alberto de Medeiros Jr.


O processo competitivo desafia as organizações a buscar continuamente meios para oferecer soluções e produtos que satisfaçam as necessidades de seus clientes e conquistem sua preferência, diante dos concorrentes. Um dos agentes que favorecem essa preferência pode ser a capacidade de inovação em produtos, processos, canais de relacionamento ou formas originais de atendimento.

Além da preferência dos compradores, a competitividade também pode ser fruto de condições que proporcionem eficiência e eficácia, tais como processos produtivos em que se utilizem menos recursos ou resultados superiores em termos de produtividade, acesso a recursos e tecnologia inovadores e diferenciados, ou, ainda, usos adicionais dos recursos disponíveis, como, por exemplo, quando se consegue reciclar recursos que anteriormente seriam descartados.

Hayek (1978) propõe que a rivalidade empresarial estimula a descoberta de novos meios para atingir determinados fins. Essa visão considera a competição como um mecanismo para descoberta de possibilidades ainda não imaginadas, promovendo ações empíricas e intuitivas em busca de soluções para garantir que as receitas sejam superiores aos custos e proporcionem condições favoráveis à construção do valor econômico de um negócio.

Barney e Hesterly (2009) conceituam o valor econômico como a diferença entre os benefícios percebidos obtidos por um cliente que compra produtos ou serviços de uma empresa e o custo total desses produtos ou serviços. Portanto, o tamanho da vantagem competitiva de uma empresa é determinado pelo valor econômico criado adicionalmente em comparação com os concorrentes.

De acordo com Mises (2010), pode-se constatar se os consumidores aprovam as iniciativas de uma empresa pelos seus lucros. Quanto maiores forem, maior a aprovação. Em contrapartida, as perdas indicam desaprovação.

Assim, as visões de Hayek (1978) e Mises (2010) se complementam, diante do estímulo proporcionado pela dinâmica competitiva à aproximação entre teoria e prática, uma vez que os modelos conceituais se desenvolvem continuamente pela adição de novos conhecimentos adquiridos pela experiência na busca da viabilidade econômica das empresas.

Alguns exemplos de fatos ocorridos no mercado refletem essa condição. É o caso do que vem ocorrendo no setor têxtil brasileiro nas últimas três décadas. No início dos anos 90 ocorreu o processo de abertura econômica brasileira, que consistiu na liberação às importações. Tal fato facilitou a entrada de produtos externos, desencadeando um crescimento repentino do número de concorrentes disputando a preferência dos clientes.

Kon e Coan (2005) afirmam que o setor têxtil foi um dos mais afetados no Brasil a partir da abertura comercial face à sua precária estrutura para enfrentar a concorrência dos produtos importados. Desta maneira, segundo Lopes (2011), a redução das alíquotas de importação, o obsoleto parque industrial brasileiro, a defasagem tecnológica em relação aos demais países e a supressão de barreiras não tarifárias resultaram no fechamento de muitas unidades fabris durante os anos 90. Tal cenário se agravou após a entrada dos países asiáticos, que se tornaram grandes produtores e exportadores dessa indústria.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – ABIT (2013), o setor passou por uma fase difícil por muitos anos a partir de então. O significativo aumento do volume de importações e a falta de condições competitivas para compensar a perda de participação no mercado local com a conquista do internacional, por meio de exportações, resultou em uma balança comercial bastante desfavorável, o que pode ser considerado um absurdo diante das características estruturais e a expressiva proporção do setor na economia do País.

Tem-se, no Brasil, a última Cadeia Têxtil completa do Ocidente, que contempla desde a produção das fibras, como plantação de algodão, até os desfiles de moda, passando por fiações, tecelagens, beneficiadoras, confecções, atacado e varejo.

Mesmo assim, a situação do setor no cenário atual se agravou pelo surgimento e rápido crescimento da concorrência chinesa, pela crise de consumo na Europa, excessiva carga tributária e de encargos trabalhistas, dentre outros fatores. Como consequência, a queda de participação no mercado conduziu à queda proporcional dos empregos gerados pelo setor.

Naquele momento, cerca de 23 anos após a extinção da política protecionista outrora praticada pelo governo brasileiro, estimava-se que a cada segundo eram importados cerca de US$ 214 de têxteis e confeccionados. Sob o ponto de vista de impactos para o desenvolvimento do País e da qualidade de vida de sua população, preocupava o fato de que, a cada minuto, um emprego deixava de ser gerado (ABIT, 2013).

Com cerca de 30 mil empresas do setor no país, eram oferecidos, então, 1,7 milhão de empregos diretos. Desde o início da crise iniciada com a abertura comercial, o setor é o segundo maior empregador da indústria de transformação, perdendo apenas para alimentos e bebidas (juntos) e também está em segundo lugar dentre os maiores geradores do primeiro emprego. O setor também merece destaque por ser o quarto maior parque produtivo de confecção e o quinto maior produtor têxtil do mundo.

Nesse contexto de acirramento da concorrência internacional, a indústria têxtil e de confecção brasileira enfrentava o desafio de elevar sua competitividade, de maneira a aumentar sua inserção no mercado internacional e preservar espaços no mercado doméstico, o que conduziu a uma consciência para a necessidade da busca de mudanças. Para Lopes (2011), desafios relacionados ao desenvolvimento de tecnologia, aprimoramento de qualidade e eficiência operacional passaram a ser enfrentados pelas empresas nacionais, considerando a concorrência acirrada a partir da inserção de novos atores, empresas, produtos e serviços no país.

A indústria têxtil brasileira teve que trazer para o país tecnologias inovadoras para enfrentar os competidores internacionais. Destacam-se os novos fios inteligentes de poliamida 6.6, com tecnologia de raios infravermelhos longos, utilizados em tecidos em malha obtidos em máquina retilínea Jacquard, possibilitando a produção de vestuários bioativos que utilizam o calor do corpo humano e propiciam compressões localizadas para melhorar o desempenho esportivo. Inovações no beneficiamento têxtil permitiram que fibras sintéticas reduzissem a retenção de odor corporal ou que passassem a absorver líquidos, melhorando o conforto humano.

Atualmente, os números revelam uma reversão na curva de crescimento do setor, observando-se a retomada da tendência de crescimento, após sucessiva queda de participação de mercado desde a abertura comercial de 1990.

De acordo com os dados apresentados em Valor Econômico (2018), a ABIT projeta que o faturamento do setor têxtil e de confecção brasileiro registrará crescimento de 5,5% em 2018, atingindo o montante de R$ 152 bilhões. Também em crescimento, a produção de vestuário deve ser 2,5% maior, com cerca de 6 bilhões de peças, e a de tecidos pode avançar 4% no período, chegando a algo em torno de 1,84 milhão de toneladas.

O cenário para o setor projetado pela ABIT considera, ainda que os investimentos poderão atingir R$ 2,25 bilhões em 2018, o que representa um incremento de 18,4% em relação ao ano anterior, superando também os verificados em 2015 e 2016.

Com tal crescimento, estima-se que a indústria têxtil e de confecção consiga abrir 20 mil postos de trabalho, fator de extrema relevância considerando que em 2017 foram gerados 3,5 mil empregos, em 2016 foram fechadas 30 mil vagas e em 2015, 100 mil. Uma vez confirmada essa projeção, o setor fechará 2018 empregando 1,5 milhão de trabalhadores.

Os números revelam que o setor segue seu rumo de recuperação. É fato que uma política protecionista praticada pelo governo durante décadas conduziu ao sucateamento do parque empresarial e à acomodação das empresas diante da ausência de livre concorrência no mercado.

 A troca dessa política pela abertura do mercado e restabelecimento da livre competição, ainda que tenha ocasionado momentos iniciais de dificuldade para os agentes que dele participam, promoveu como resultado, a longo prazo, um aprendizado sobre como promover o desenvolvimento econômico e tecnológico de todo um setor competitivo sem que este seja dependente de organismos reguladores externos. O setor têxtil brasileiro pode comemorar, portanto, o ingresso uma nova era, em que se consolida sua competência em inovar, criar valor e, assim, se desenvolver, pelo bem do Brasil e da liberdade de mercado.

 

Referências

ABIT - Associação Brasileira da Indústria Têxtil. Desenvolvido pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil. Apresenta informações atualizadas do setor têxtil. Disponível em: <http://www.abit.org.br/site> Acesso em: 17 dez. 2013.

BARNEY, J.B.; HERSTERLY, W.S. Administração estratégica e vantagem competitiva. São Paulo: Pearson, 2009.

HAYEK, F.A. Competition as a Discovery Procedure. In: New Studies in Philosophy, Politics and Economics, Routledge: London, 1978.

KON, A.; COAN, D. C. Transformações da indústria têxtil brasileira: a transição para a modernização. Revista de Economia Mackenzie, São Paulo, ano 3, n.3, p.11-34, 2005.

LOPES, F. B. Identificação de fatores que impactam a inovação em empresas têxteis brasileiras. 2011, 155p. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção). Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo.

MISES, L.V. Ação Humana: Um Tratado de Economia. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises. Brasil, 2010.

VALOR ECONÔMICO. Faturamento do setor têxtil deve subir 5,5% em 2018, aponta Abit. Por Alexandre Melo. Disponível em: <http://www.valor.com.br/empresas/ 5221045/faturamento-do-setor-textil-deve-subir-55-em-2018-aponta-abit> . Acesso em 12/02/2018.