Taxa Selic na mínima histórica: e o futuro?

27/03/2018

Prof. Dr. Pedro Raffy Vartanian


A reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) de março ocorreu, coincidentemente, no mesmo dia em que o FED (Banco Central dos EUA) elevou a taxa de juros. A Taxa Selic foi reduzida mais uma vez, para 6,5% ao ano, em nova mínima histórica. A Selic passou a ser utilizada como taxa básica de juros da economia para contenção da inflação a partir da implementação do regime de metas para a inflação, em 1999, ainda que sua origem remonte à década de 1980.

Na divulgação do comunicado da reunião, e tendo em vista o cenário prospectivo em termos de inflação baixa e controlada, o Copom destaca que, mantidas as condições atuais, há espaço para mais um corte. Em outras palavras, se o cenário atual não sofrer mudanças de qualquer natureza, a Selic poderá ser novamente reduzida, para 6,25%, quando, finalmente, o ciclo cadente da Selic se encerraria.

A visão otimista do Copom se justifica pelo comportamento dos preços e pelo cenário internacional ainda favorável aos países emergentes. De fato, a redução dos juros no Brasil ao menor patamar histórico no mesmo dia em que o Banco Central estadunidense decide aumentar a taxa de juros não é algo recorrente. A história mostra, e com destaque para a década de 1980, que a política monetária contracionista dos EUA impactou severamente a América Latina e outras nações não desenvolvidas, com reversão do fluxo de capitais, queda no preço das commodities e uma sequência de moratórias e crises da dívida.

O mesmo comunicado otimista aponta, também, que o cenário adverso pode ocorrer a qualquer momento, alterando a tendência baixista da taxa de juros no Brasil com a reversão da política monetária. Os determinantes para a reversão têm relação com eventos internos e externos. Do ponto de vista doméstico, a economia brasileira vem se recuperando gradativamente após um longo período de recessão com a retomada da estabilidade dos preços e de um reequilíbrio, mesmo que parcial, do balanço de pagamentos. A questão fiscal, entretanto, sugere cautela, em um cenário de déficit elevado e razão dívida/PIB crescente. Como os últimos meses, e até mesmo anos, têm demonstrado, o ajuste fiscal pelo lado da despesa é significativamente incipiente ao mesmo tempo em que a correção do déficit pelo lado da receita enfrenta dificuldades políticas em um país que tem uma carga tributária bastante elevada em termos comparativos.

Do ponto de vista internacional, a preocupação recai, fundamentalmente, sobre o ambiente econômico, com destaque para a reversão das políticas monetárias expansionistas nos países desenvolvidos. A história mostra que um processo de reversão da política monetária em países avançados, com destaque para os EUA, “absorve” a liquidez mundial. Dito de outro modo, a redução da liquidez decorrente do aumento da taxa de juros nos EUA provoca uma atração de capitais para a maior economia do mundo. Estes capitais, por sua vez, estão alocados em títulos e ações de países emergentes. Também estão alocados em investimentos de risco na própria economia dos EUA. O resultado é facilmente visível. A alta da taxa de juros nos EUA tende a provocar uma queda no mercado acionário dos EUA e do resto do mundo, e uma fuga de capitais aplicados em títulos dos países emergentes, o que provoca uma desvalorização da taxa de câmbio e um aumento dos juros nos países como o Brasil.

Nesse contexto, é praticamente impossível arriscar uma previsão sobre a continuidade, ou não, do ciclo de baixa da Taxa Selic. É fato que os riscos nos ambientes interno e externo sugerem a interrupção das quedas, com a Selic permanecendo no atual patamar nas próximas reuniões. Por outro lado, se o cenário continuar extremamente favorável, certamente o Banco Central do Brasil não hesitará em reduzir mais uma vez a taxa básica de juros da economia até a interrupção total do ciclo de queda.

 

Pedro Raffy Vartanian é Coordenador do Mestrado Profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.